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Criança à Flor da Pele

É isso aí! ‘Criança à Flor da Pele’ é o título de nosso primeiro livro.

A inspiração do título veio da canção ‘Verbos à Flor da Pele’ do compositor Marcelo Yuka.

O verso,

“é preciso plantar
no chão do céu da boca
verbos à flor da pele”

nos diz sobre o quão importante e necessário é transformar o quê nos está à flor da pele em linguagem, tanto a dor quanto o prazer. A música trata das emoções da luta do movimento social pelo direito à terra, para trabalhar e viver, dos trabalhadores do Movimento Sem Terra.

Para nós, Tassi e Caio, escritores do Encanto em Conto, esse sentido está presente também em nossa relação com a escrita. Pois uma característica muito forte nossa é escrever através de uma lógica e sensibilidade, próprias de criança, que observa e narra situações de um mundo adulto – com uma linguagem adulta, inclusive. É a nossa criança à flor da pele que transborda nas linhas que escrevemos!

O nosso livro está sendo preparado com todo o cuidado, será confeccionado artesanalmente pela Editora Impulso Visual, que tem sido também nossa parceira nessa caminhada toda de tornar realidade o nosso sonho. Será uma coletânea de contos e poesias, ilustrada por Francis de Cristo e Antonio Lopes.

O financiamento da publicação será colaborativo através da plataforma de crowdfunding Catarse. Funciona assim: nós preparamos uma série de brindes e recompensas que compõe pacotes, com valores e combinações distintas para colaboração financeira. O próprio livro, em uma ou mais unidades, faz parte desses arranjos. Ou seja, você adquire o livro e/ou outros itens promocionais, como marca-páginas e brindes artesanais feitos com carinho pela Cabide, ao mesmo tempo em que torna possível a concretização deles próprios. Assim que lançado no Catarse nós teremos 60 dias para alcançar o valor necessário e o período que escolhemos é novembro e dezembro de 2014!

Acompanhe nosso trabalho! Semanalmente (ou quando a dureza da rotina permite) nós publicamos micro-contos em nossa coluna no Portal da Rádio Banda B!

Avante e resistência à literatura!

Confira aqui a canção do Yuka!

Entre em contato com a gente! 😉

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Sonhos Lúcidos

Eles lembravam aqueles velhos brinquedos de madeira empilhados um a um à sua frente. Como uma tarde no jardim de infância construindo palavras com as letras que desconhecia. Ou como diante de um labirinto de pedras e fadas malvadas. Era noite enluarada e ela tinha a clareza que sonhava. O companheiro deixado no quadro passado tinha sido inclusive avisado “– Vovó acabou de cozinhar para nós quitutes árabes! Não é fantástico?” Ali tudo podia, lá. Era momento de escolher o próximo quadro, a próxima leitura, a próxima dança, a próxima escrita. E todas as possibilidades estavam empilhadas e lhe rodeavam como um colchão protetor de elevador em dia de mudança. Admirou os cubos de escolhas que seu eu poético criou para si. Riu e acordou.

– Tassiane Corrêa Fontoura

Aprendizados Malditos.

A mesa posta do jantar esfriava oposta às têmporas de cada um naquela mesa que fervia. Todas as bocas abertas e ninguém sabia o que dizer. E bem sabiam os ali presentes que não era a primeira vez. Já havia sentido o mesmo calo nas cordas a avó do tataraneto. O mesmo estúpido nó na garganta. Será um desfortúnio do destino? Mal dita maldição! O que será dos Silva? A criancinha recurvada em ombros nos ouvidos não entendia nada. E jamais dizia também, nem perguntava. Aprendia pouco a pouco a pouco falar sobre tudo. Estavam ali, todos os rastros das más alianças. A recém-casada sobrinha, a mais nova das meninas, sentada ali de olho roxo e fratura na mão. Seria mãe, mas não havia mais bebê. Só um beberrão de um sarcástico esposo que insistiam em lhe dizer, ela  tinha de obedecer.

– Tassiane Corrêa Fontoura

Patifarias

O estardalhaço era grande! Elas saiam de todos os lugares: do papo da criança papuda, castigada por pegar os irmãozinhos no colo; da verruga no dedo do apaixonado que apontou pra estrela no céu; do xixi na cama do menino que brincou com fogo; da língua comida pelo gato da menina curiosa; do lábio torcido do neném que fez careta e o vento bateu; dos pelinhos na mão do garoto que se acaricia… Extravasam de todos os medos até o alto das camadas mais altas do céu – lá bem onde nascem e morrem as nuvens mais cinzentas… E morriam em gotas pesadas essas estúpidas regras todas! Tempestades barulhentas. As sementes de uva, transformavam então, aquela água toda em acalento pro menino que desejava sobremesa fora de hora – e nunca mais se teve lombriga ou outra asneira.

– Tassiane Corrêa Fontoura

Agrado

“Noventa por cento do que escrevo é invenção.
Só dez por cento é mentira” Manoel de Barros 

Vasculhava as quinquilharias guardadas em algum baú de boas histórias. Matutava com dedos batidos no peito alguma excêntrica novidade pra fazer rir o tão amado companheiro. Era o seu propósito diário! Cada acontecimento qualquer era pólvora pra sua pistola de boas invenções. O tom de sua voz vibrava em cada besteirinha que valorizava! Aquele bom menino era seu sabiá caído do ninho… Passarinhos têm olfatos tolos e então, mesmo quando tudo por volta fedia contava-lhe que o universo todo perfumava e que ele tinha de levantar pra ver o colorido das flores! Acariciava a penugem daquela tão única cabecinha cheirosa e enfim dormia. O outro dia vinha e lá ela dedicada com suas criações. Foi até que sabiá levantou, voou, voou, voou… E a Investista admirada transformou-se em artista pra suportar a dor das verdades que não contou.

– Tassiane Corrêa Fontoura

O Prazer é Todo Meu

Há fins de tarde que é de se guardar! Numa cidade de mar sem praia riam uns seis sentados na mesa do bar na calçada. Contaram nos dedos os pedidos: – Bolinho de mandioca e cerveja, prá começar! O bolinho derretia na boca e sumia. E entre os copos e sumir dos bolinhos ficava esticada um enfeite desconsiderado pelas barrigas. E de cada ponta da mesa ninguém suspeitava daquelas duas que calculavam a exatidão para atacar. Mas ataque de doçuras é sempre todo cheio de graça! Primeiro fizeram o desdém – Quem vai querer comer isso com cerveja? E palpitavam como quem não quer nada: – Com um pouquinho de sal e vinagre até que vai! Mas aí já tava tudo percebido. A mesa toda ria e as molecas se entregavam a excentricidade. Só houve desculpa pra uma primeira observação: – Teremos de pedir outra porção! Sumida a outra dúzia dos bolinhos puderam então atacar uma a uma: A folha verdinha de alface no prato enfeitada.

– Tassiane Corrêa Fontoura

Sabedoria Desfigurada

Imaginava encontrar, nas corcundas donas de cabeleiras brancas, aconchegadas em suas cruzadas pernas de índio, as respostas para as confusões de cada dia. Tivesse sido mais atenta despertaria o olhar para as moças disfarçadas em uniformes de tias. Pois, lúdicas imitações da realidade lhe vieram quietinhas assoviar a proteção pra cada susto. Mas a cabeça tonta lhe tarjava a atenção.

É, avuada como dizem todos. Aos seus vinte e poucos anos tomava conta do lapso e, arrependida, a ferida doloria. A cancha verde de futebol do colégio é o que primeiro lhe resgatam os circuitos da memória. Faixas amarelas riscavam no chão a circunferência a ser seguida pelos pés da criançada. Uma a uma se endireitavam. Ela estremecia ao pedido de abraçar com seus dedinhos a mão do coleguinha ao lado. Derramavam-se em suor pezinhos e mãozinhas. O que tão menina tanto temia?

A quietude das pernas e braços contrastava as barulhentas emoções da barriga. Mal pôde concentrar-se no que dizia a moça em disfarce. A necessidade de protagonizar qualquer movimento preciso perante à bola que dançava no alto e por entre os colinhos saltava sem qualquer prevista direção, apavorava-a. Tensa, meticulava um fio sem fim: de quem a batata quente lhe viria e pra onde a lançaria? Ah, se a ansiedade barulhenta da barriga se convertesse em barulhinho de risinhos! Só olhar pro alto com coragem e enfrentar a monstruosa bola que veja só, numa pontinha só de alfinete pode virar murcha. E sabe, bolas podem ser sábias companheiras! Era larga-se com o corpinho para trás e compreender que batata quente vindo de água a ferver ninguém segura sozinho.

Destacado

A Fabulosa Arte de Confabular!

Dizem as más línguas que mora o bicho-papão embaixo do meu colchão…
Dizem as más línguas que se eu saio lá fora o homem do saco me leva embora…
Dizem as más línguas que se não obedeço meus pais a cuca não me deixa em paz…
Dizem e riem mais quando faço as caras que o medo me traz.

Dizem as más línguas que a bruxa é ingrata e me transforma em barata…
Dizem as más línguas que na lua cheia o lobisomem rodeia…
Dizem as más línguas que se um espelho quebrar são sete anos de azar…
Dizem e eu nada digo, pois quem responde ou mente, o papai-noel não traz presente…

Eu gosto de dizer, quando o vento me refresca, que eu queria ter nascido na floresta…
Conhecer o curupira, lembrar que todo medo é uma mentira…
Encontrar a caipora e esquecer do tempo, felicidade não tem hora…
Aprontar com o saci muito longe daqui.

As más línguas do gosto azedo guardam um segredo…
Estudam desde cedo como fazer você ficar com medo…
Sabem tudo de cor para te enganar melhor…
Mentem adoidado e não perdem o rebolado…

Dizem as más línguas…
Digam as más línguas o que quiserem dizer, eu tapo os ouvidos e continuo a escrever…