Escritores Companheiros

Inspirados na ideia de Tornallon de uma comunidade rural da Espanha criamos essa página!
O Tornallon para essa comunidade é nome da prática de trocar saberes e frutos do trabalho uns com os outros através de mutirões. Lutando assim pela resistência de seu modo de vida!  Nós, fortalecendo essa prática,
reservamos este espaço de nosso blog para a troca e também resistência entre nós escritores!

Basta enviar um e-mail com sua contribuição: encantoemconto@gmail.com

Nuno Costa

Gladiador

Pra cá labutar? Tem que ser gladiador. Servo da podridão. Só de ver esse abutre voar, fico tonto. Parece que tem mais fome que a gente. Esses pivetes que largaram da escola. É a maior gritaria quando acham uma bola. Por vezes, aparece um defunto. Ninguém procura encaixotar o presunto. É tudo o mesmo produto. Se não é pior. Tem ratazana que parece cachorro: de perto se vê o tamanho dos dentes. Madame não vem revirar sacola de mercado nem separa o que não está estragado. Vem dizer que é granfino? Não assino. E daí que usa gravata? Toda essa grandeza acaba fazendo festança pros porcos. Uns quilos de garrafa, um bocado de alumínio e um amontoado de papelão garantem o comer da tropa lá de casa.  Trago tudo pra cá. Não dão um piu. Agradeço ao Senhor pela família que tenho.  A do meio contraiu gravidez. O mais velho desmancha automóvel. Os três pequenos devoram tudo que passa na frente. A minha senhora coleta verdura, fruta e o que dá pro aproveito. A fuça acostuma com essa catinga. Com o tempo, o nariz perde o cheiro. Tem jeito? Cansei de responder questionário pra estudante. É tanta pergunta que a gente perde a razão. Anotam e picam a mula. Não aguentam. Que sumam de vez. Nada muda mesmo. Não lhe ofereço um café porque o pó acabou. Essa é a marcha. Farejamos o prato e a digestão do amanhã. A própria vida acaba sendo vilã.

Gustavo Junged

 

Clorofila.

para Chicop.

‘- Parece cogumelo.’ Mó vacilo isso aí!
(Tassi e Caio)

 

Oscilava entre o loiro e o ruivo. Alguns diriam castanho. Fato era que Laerte teria sua cabeleira estirpada do couro naquela tarde.

Sentou detrás da mesa do escritório de seu pai e observou sobreposto ao azul petróleo da parede a curiosa prateleira de troféus: uma coleção de peixes de madeira, uma edição mofada da revista Placar, um revólver prateado emoldurado junto com 4 balas e o cuco de um relógio perdido. Virou a cabeça à esquerda buscando um pouco de luz natural e sentiu seus cachos anti-newtonianos balançarem; a veneziana estava fechada. À direita papai fez um gesto afirmativo com a cabeça e, enquanto o garoto desembrulhava seu chiclete de clorofila, o barbeiro açoitava sua alma via tesoura. O ir e vir mortífero de um dedão por sobre o indicativo arrancando gemidos e lamentos dos lábios de Laerte.

Enquanto sua vista embaçada assistia seus cachos irem ao chão, o gosto suave de algas e açúcar atingiu o fundo de sua garganta levando o garoto a espumar pela boca. Em rebelião aberta, a cabeleira de Laerte voltou-se contra seu verdugo: crescendo vigorosamente, um tufo enrolou o barbeiro rapidamente como uma aranha faz com sua presa. Enquanto papai saia correndo, o cabelo de Laerte retorcia-se contra o escritório. Partiu a escrivaninha ao meio e seguiu em direção a estante: derrubou os troféus, arrebentou parafusos e rachou a parede. Quebrou a moldura da pistola e meteu-se entre o tambor e o cano como se fosse um varal. Arrebentou as venezianas e quebrou os vidros debruçando-se janela afora.

O cabelo de Laerte clamava posse do escritório, em breve,do edifício, da rua, da cidade. Laerte ainda babava e revirava os olhos: curtindo seu chiclete.

 

Pedro Artur Melo

“O papel mais importante da arte e da ciência consiste em despertar e manter despertado o sentimento dela naqueles que estão abertos” Einstein

Café

A minha maneira de procrastinar quando tenho que fazer trabalhos da faculdade é fazer tudo aquilo que eu sempre quis fazer, mas nunca faço, ou nunca tenho vontade. Escrever crônicas é uma delas.

Hoje eu acordei por volta do meio dia, sendo domingo, não é tão tarde assim e eu moro sozinho, não tenho que cozinhar pra ninguém. Minha madrinha e dois primos passaram essa última semana aqui – a presença deles foi também uma ótima desculpa pra procrastinar. Hoje eles foram embora, depois de uma semana de visita, foi uma boa semana, fazia tempo que não conversa com eles, com ninguém alias, ultimamente tenho me decepcionado com o ser humano. As conversas que venho tendo giram em torno do mesmo tema, e isso é um saco, às vezes com pessoas amigas que já me emprestaram muitas vezes o ouvindo.

Hoje almocei arroz e strognoff requentados que minha madrinha deixou na geladeira, ela falou pra eu deixar de lado a comida congelada, ela está certa, com tantos condimentos e conservantes que contém nesta merda que eu como quase diariamente, boa parte do meu mau humor pode ser creditado ao seu consumo. Mas, uma mudança aparece no horizonte na minha alimentação, agora tem até um cacho de bananas em casa. Claro que não fui eu quem comprei, minha madrinha comprou e deixou pra trás, talvez de propósito. Falando desse jeito até me sinto um influenciadinho qualquer. Apesar disso, tenho meus momentos de glória, um deles aconteceu hoje, e é isso que eu vim contar.

Depois te ter almoçado, sentei no sofá e comecei a assistir a um desses desenhos irônicos que tem no Netflix, santa internet! Isso já era umas 4 e 30 da tarde – podia ser 4 :20 –, comecei a bocejar.

“Vou tirar uma soneca! Descanso, acordo e faço meus trabalhos”.

Não sou nenhum sênior ou guru que tem um profundo conhecimento do próprio ser, mas já me dei mal o bastante pra saber que minhas sonecas duram mais que deveriam. Então decidi caminhar, ainda era sol e em Curitiba pode-se encarar isso como um milagre! Decidi aproveitar o bom tempo. Trajava uma camisa meio rosa, meio vermelha, acho que o nome dessa cor é bordeaux, toda amarrotada. Sentia como se aqueles amassados fossem a impressão dos meus sonhos da noite anterior, feitos por mim e impresso pela minha cama diretamente na minha camisa de cor esquisita –  e não achei de mal tom mostrar isso pros curitibanos. Foi meu jeito sutil de mostrar, apesar tudo –  e da apatia social curitibana –  que não tenho problema em mostrar algumas intimidades, principalmente relativas aos meus sonhos. Vai ver eu nem acho tão ruim assim contatos com os seres humanos.

Em contra partida, uma coisa boa de morar em Curitiba é a proximidade do Paraguai. Todo mundo sabe disso, principalmente a classe média. O rico, ta nem aí, tem dinheiro pra comprar as coisas no shopping no Brasil mesmo, ou melhor, manda o motorista no lugar. O pobre, ah o pobre, se eu achasse uma lâmpada mágica, um dos meus pedidos seria para que o pobre tivesse condições de ir atrás de seus sonhos. Nós, classe média, ainda temos o Paraguai, no qual podemos comprar coisas que achamos que são mais baratas e sentir que fizemos bom negócio. Essa semana, eu comprei um óculos escuro lá, bem bacana. Andava nas ruas curitibanas e me achava protegido atrás da minha mascara preta de lentes polarizadas. Dizia pra mim mesmo: “Esse é o óculos que o Nicolas Cage usou no Senhor das Armas. Sou cheio de estilo. Essas pessoas pensam que eu tenho bom gosto, mas na verdade eu sou um mero paga-pau, mas eles nem sabem então tudo bem”. Contudo, me deu a confiança necessária pra andar com um peito semiaberto e com a cabeça erguida na rua, afinal de contas eu fiz um bom negócio e eu sou muito esperto.

xD

Todo esse floreio foi pra comprar um misero cigarro de palha no shopping perto de casa, ah um isqueiro também. Você poderia me perguntar por que um cigarro de palha e não um normal? Ora bolas, porque eu prefiro o gosto e cheiro da palha e do fumo não industrializado. Que reposta você esperaria se perguntasse a alguém porque escolheu frango e não carne? Porque frango é mais saudável, carne branca? Lorota, um animal que nem o frango que está pronto pra ser abatido em 18 dias não pode ter uma carne saudável! A mesma coisa é o cigarro de palha, é um cigarro diferente, nem mais saudável nem menos que o convencional, mas pra mim é um cigarro com mais gosto, é um “café sem açúcar” dos cigarros. Aliás, palheiro, café sem açúcar e chocolate meio amargo é uma ótima combinação, recomendo.

Vou ser sincero com você, ou apenas lembrá-lo, o assunto que iniciou este texto. Na verdade eu não saí na rua pra comprar o cigarro. Eu sai pra andar, estava com sono e não podia dormir, fui colocar oxigênio nas veias, e um pouco de CO2 que sai dos canos de escapamentos dos carros e dos cigarros também. É, concordo, não foi uma das minhas melhores ideias, mas também não foi das piores. Na verdade devo ter ido andar na rua pra mostrar os óculos novos, só falta saber pra quem. Não, eu fui é procrastinar, fui arranjar coisa pra fazer invés dos meus trabalhos acadêmicos.

Antes que você se desista de ler o que eu escrevi, confesso que ainda não chegamos ao momento épico que vivi hoje e que eu queria compartilhar. Você acha realmente que eu iria escrever isso tudo porque eu fui caminhar na rua com um óculos comprado no Paraguai, que nem foi uma escolha minha, foi uma pagação de pau de um ator de Hollywood? Você acha que esse foi o meu momento áureo do dia? Não mesmo. Se você achou isso, por quem me tomas? Não sou um mero consumidor, tenho consciência que sou explorado! Sou um consumidor sem muito peso na consciência de ser um consumidor, mas deixemos essas afirmações sobre minha personalidade para os ouvidos dos meus amigos mais íntimos.

Voltando ao acontecimento do Domingo, no caminho entre minha casa e o shopping tem um café novo todo estilizado. Parece aqueles cafés de series de televisão norte americana, até os preços parecem ser cobrados em dólares, de tão caro que era aquela porra. Ele estava lotado, estacionamento mais lotado ainda. Porque raios alguém sai de casa, pega um carro pra ir a um café caro no meio do caminho da minha casa e do shopping, no domingo, não pagaram a televisão a cabo, ou quem sabe o gato net parou de funcionar e não tinha mais o que fazer? Só podem ser loucos. Mesmo assim, rodeado de loucos, decidi entrar naquele lugar.

Só pra constar, já tinha comprado meu cigarro de palha e ele tava no bolso da minha camisa amarrotada.

Minhas opções de lugar eram: (a) um balcão perto do caixa, que ficava exprimido entre o caixa e outra mesa; (b) um outro balcão mais escondido. Escolhi o (c) um canto, óbvio, tinha menos loucos perto de mim e eu poderia ficar loqueando comigo mesmo. Achas que vou passar por um louco no meio daquele monte de loucos? Jamais! Estava sozinho. Que tipo de pessoa vai sozinho num café no domingo à tarde, no meio do caminho da própria casa e um shopping depois que se compra um cigarro?

Eu mesmo – E aí de você se achar que sou um louco!

Ué, vai me dizer agora que não posso tomar um cafezinho depois de comprar um cigarro? Faloisso porque a moça da entrada do café, a que recepcionava novos clientes, se assustou quando eu falei que estava sozinho, que queria apenas uma cadeira e um café, vai ver ela achou que um café não valia essa solidão toda assim. E estranha achei ela por achar isso estranho.

No lugar aonde eu sentei tinha resquícios do último pedido. O cliente tinha solicitado algo com cheddar. Vou te contar uma coisa, como o cheiro de cheddar morno é horrível, ainda bem que o cara da limpeza limpou rápido o lugar que eu estava. E por favor, se você for em algum lugar antes de mim não peça um prato com cheddar, ou melhor, não deixe cheddar num prato –  deve ser pecado.

Aqui é onde a historia começa a ficar mais interessante.

Antes, preciso dizer que gosto de pensar em detalhes, ainda mais aqueles que passam despercebidos e de tão importantes fazem toda a diferença caso eles não aconteçam. É isto que essa crônica se propõe, a mostrar estes detalhes importantes, que foram para meus olhos, é claro. Pra ficar mais claro o que eu estou tentado dizer, quem se lembra do filme “O Curioso Caso de Benjamin Button” sabe exatamente do que eu estou falando. Quando Daisy quebrou a perna e Benjamin pensava sobre as possibilidades dela não ter quebrado alterando, mentalmente, qualquer um dos eventos que aconteceu. Por exemplo, se ela não tivesse voltado pra atender um misero telefone ela poderia não ter quebrado a perna, se ela tivesse pegado o casaco que ela sempre pega, mas dessa vez não pegou, essas coisas. Esse tipo de detalhe é que me interessa e são eles que eu vou tentar te mostrar.

Voltando pra cafeteria, voltando pro cara que limpou a mesa que eu estava –  ele limpou tão rápido que o balcão ainda tinha sujeira, resquícios de pó de giz. Esqueci-me de dizer que em cima do balcão que eu estava tinha um quadro negro – por isso o giz. Fiquei puto no primeiro instante com aquele pó, limpei o máximo que pude com o guardanapo, mas acabei só por espalhar mais o giz, bosta. No meio dessa tarefa percebi a caixinha de giz bem no canto, cheia de giz. Depois, fui tentar decifrar o que estava desenhado na minha frente, no quadro. Tinha a logomarca do café bem no centro, mais ao canto tinha um “oi”.

Automaticamente me lembrei da inscrição no buteco de quinta categoria que bebo na sexta feira à noite após a aula. No banheiro tem várias inscrições de Aleister Crowley à números de prostitutas, olha o naipe do lugar. Porém tem uma que me deixou triste a primeira vez que vi. Em caneta azul estava escrito: “Você vive ou sobrevive?” E numa caneta vermelha, com uma letra tremida, a resposta: “Vivo”.

Até hoje, só de me lembrar da sensação que tive naquele dia, fico triste. Pense bem na situação na qual uma pessoa se encontra a tal ponto dela sentir a necessidade de responder uma coisa dessa num lugar desse?

Esqueci dizer que este banheiro também é o point do consumo de cocaína do centro de Curitiba.

A segunda pergunta que me fiz no banheiro vale também para a cafeteria: “o que faz uma pessoa responder o que tá escrito em algum lugar?” Parece que repetimos a reflexão, mas agora com palavras diferentes.

Naquele momento tentei me colocar na posição da pessoa que respondeu o que estava escrito no buteco, segundos antes de escrever a resposta na parede: “Preciso responder!” – só pode ser isso que ela pensou.

Um estranho tinha dado oi pra mim no quadro da cafeteria, mas a sensação era de que tinha sido ao vivo, eu deveria responder a gentileza! E eu só consigo responder uma gentileza inesperada, como é o caso, com algo que eu julgue belo.

Dei uma olhada pra trás pra saber se o japonês que tinha anotado meu pedido iria mesmo trazer meu expresso duplo, afinal de contas eu tinha que acordar pra pelo menos procrastinar acordado, se fosse pra dormir ficava em casa. Nisso, já que o japonês tinha sumido, passei a olhar as pessoas no café. Por um lado, queria ver o que acontecia e por outro queria buscar inspiração do que escrever no quadro.

Existiam vários tipos de pessoas naquele lugar, estavam vestidas de diversas maneiras. Mas uma coisa que parecia unir todas elas. Era o fato delas almejarem, pelo menos, parecerem, “what ever that means.” Tinha uma mulher com um caderninho, um Mac Book escrevendo algo – se você que me ler for um classe média, quando for ao Paraguai compre um, você também achará que fez um bom negócio. Achei aquilo pura bobagem, mas torci para que ela escrevesse algo que ela gostasse. Vi um grupo de amigos sorrindo bastante, percebi que as meninas olhavam pra mim. Não sei se me acharam bonito ou ficaram assustadas pelo fato de um cara de camisa amarrotada, óculos escuro no bolso da camisa – convenhamos ninguém fica com óculos no bolso, mas o lance é que não posso deixá-los em cima da cabeça, meu cabelo é muito oleoso -, cabelo bagunçado e sozinho no canto de um café. Provavelmente se perguntavam por que eu estava sozinho. No balcão ao lado tinha um casal gay bastante animado com o cardápio, eles pareciam com uma dificuldade em escolher o que queriam, mas aquele tipo de dificuldade que a gente enfrenta ao enfrentar o desconhecido e esperando algo gostoso no final. Mas o que mais chamou minha atenção foi o trio na mesa mais próxima a mim, estes eu conseguia ouvir a conversa.

Eram duas moças e um homem. O XY era o palestrante. Ele falava sobre relacionamentos. Teria ele desenvolvido uma teoria sobre relacionamentos, e o mais legal é que ele havia batizado essa teoria. Achei legal ele dar um nome a uma coisa que ele criou. Tal qual o Chaves batizou um de seus desenhos de Chimporimpola e eu adoro esse episódio. O nome era algo como relacionamento digital. Segundo ele este tipo de relacionamento as pessoas conversariam bastante pela internet e pouco ao vivo. As moças pareciam mesmerizadas com a conversa e apenas acenavam com a cabeça afirmativamente enquanto ele falava. Parecia que elas queriam transparecer que eram inteligentes, mas na verdade parecia que elas não estavam entendendo nada, mas não queriam que ele ou qualquer um que fosse pensasse isso delas. A minha sensação era que eu estava experienciando, na frente dos meus olhos o que na vida textual a gente chama de metalingüística. A descrição do cara sobre relacionamento era o relacionamento que ele estava tendo com aquelas moças. Não havia interação, havia um diálogo onde só um homem falava e as moças concordavam. Por causa disso passei a pensar em um monte de coisas: porque as mulheres estão dando importância de aparecem inteligentes, seja pela forma da conversa, seja por estarem num café com uma estética de café que pessoas inteligentes vão. Pra mim, isso tudo é como se fosse um produto na prateleira – olha meu lado consumidor falando aí hehehehe. A cena daqueles três seria o anúncio publicitário: “Quer ser inteligente? Fale sobre relacionamentos digitais em um café onde nós publicitários dizemos que as pessoas inteligentes vão.” E elas realmente vão. Talvez não os mãos de vaca, esses são super inteligentes, guardam toda grana pra gastar no Paraguai.

Minha vontade foi de apagar o símbolo do café no quadro da minha frente, sair dali e detonar uma bomba com essas três pessoas amarradas nela e mandar para os ares todas aquelas pessoas juntas, menos eu, que estaria numa distancia segura regulada pelo Inmetro detonando a bomba remotamente com um dispositivo portátil ISO 9000. Preferiria ficar contando piada, boa ou ruim, pesada ou leve, politicamente correta, principalmente a politicamente correta e chamar são paulino de Bambi – Grande Vampeta, essa foi uma das maiores contribuições dele pro futebol – junto com aquela cambalhota no Palácio do Planalto logo após a conquista do penta campeonato. Contudo, logo lembrei que eu gosto de conversar com pessoas ditas inteligentes tão quanto eu gosto de conversar com pessoas que não são ditas inteligentes. Comecei este texto reclamando dos papos iguais, nada melhor conversar com gente diferente pra ter um papo diferente. Na verdade, gosto de chala como si nada como diria Eduardo Galeano, e nesse sentindo – de jogar papo pro ar –  encontrei mais pessoas assim nas parcelas tidas como menos educadas da sociedade do que em outro lugar. Não se importam em tomar cerveja na calçada a céu aberto, vão se importar com o carro que eu não tenho?

Mas esse não é o ponto da conversa. Após meu instinto assassino se acalmar e perceber que ainda assim poderia conversar de maneira prazerosa com uma pessoa ali, meu café chegou e voltei de frente ao balcão mais calmo. Lembrei-me da pessoa estranha que tinha me dado oi e eu ainda não lhe havia retornado a gentileza, não posso deixá-la esperando.

Logo pensei: “Que sacanagem!”

A pessoa sai de casa no domingo à tarde, pega um carro, vem pra esse café entre minha casa e o shopping, diz um oi pra mim, dá um troco pro flanelinha e vai embora e minha resposta seria um atentado terrorista? Aí percebi que estava exagerando. Voltei a tomar meu café mais calmo ainda e comia algo que no cardápio estava escrito que era torta de maça, mas na verdade parecia óleo de fritura com calda de chocolate. Como ainda estava com o instinto terrorista se apaziguando, quase no fim, lembrei-me do grande ensinamento de Tyler Durden sobre como fazer bombas de nitroglicerina com gordura humana – tomara que no café eles usem vegetal para fazer os alimentos. Tendo em vista a gordura que saía da minha torta, bem que podia fazer uma mini bomba, explodir o café e ter meus 15 minutos de fama na TV local.

Tendo reavivado meu instinto assino e buscando minha fama, eis que me surge a primeira idéia de reposta ao estranho ou estranha que me deu um oi. “Tyler Durden was here”

Logo pensei: “Genial”.

Isso mostra todo meu desprezo por esse local, por esse trio ao meu lado falando merda. Vou mostrar pra eles que eles não são as roupas que eles usam, o café que eles tomam, o papo que eles tem. Vou mostrar a realidade nua e crua pra eles. Mas que aqueles idiotas não saberiam quem era Tyler Durden, eles deviam assistir apenas aos filmes que passam no Telecine Cult. Quando peguei no giz pra escrever, fraquejei.

Pensei que era bem possível alguém deles terem visto, havia muita gente, havia o pessoal que trabalhava lá, existia a moça que tava escrevendo no laptop e podia procurar alguma coisa na internet, de alguma forma achava que ela sabia mais – ela só deve fazer compras no Paraguai. Na verdade, ela era bonita eu tava era com medo da beleza dela. Queria a aprovação dela, queria mostrar pra ela que eu era inteligente, assim de repente a coisa mudou completamente de figura.

Todo meu desprezo por aquelas pessoas foi transformado na vontade de chamar a atenção daquela bela moça e conhecer seus segredos e suas intimidades. E se ela me achar um pretensioso metido à poeta que anda por ai amarrotado se achando o Bukowski, isso é problema dela.

“Filha da mãe” – pensei.

Ela já está me dominando. Tentei achar outra coisa pra escrever no quadro, pensei em desistir de escrever. Achava-me em contradição, por um lado deveria responder a saudação daquele individuo estranho que me disse oi – dizer oi é se importar com o outro, dizer oi é dizer bom dia. De onde eu venho não dizer bom dia é uma das maiores injurias que você faz com uma pessoa que não gosta, em resumo: “pra essa pessoa não dou nem bom dia”, diria meu falecido avô. Por outro lado, o que escrever para impressionar aquela moça?

Neste momento me senti como se fosse a mãe da história do Rei Davi que preferiu ver seu filho com outra mulher que do que vê-lo rachado no meio, resolvi escrever mesmo que o que eu escrevesse fosse aquilo que eu nunca escreveria. Mas “Tyler Durden was here” não me parecia sutil suficiente.

No fim e ao cabo acho que fiz a escolha certa. Veio na minha cabeça uma das cenas mais marcantes do filme quando Robert Paulson é morto e o personagem do Edward Norton começa a reviravolta que vai desencadear para o final do filme.

“É isso” – pensei. Vou escrever, “his name was Robert Paulson”. É sutil o suficiente, não vai soar pretencioso aos olhos não atentos e aqueles atentos, bom, não sei o que eles pensarão. Eu pensava na reação da moça, na verdade pensava em mim. Eu havia me colocado num beco sem saída – virei até mãe bíblica – eu havia de me tirar dessa situação. Acabou que sair desse quadro foi a minha grande lição e que eu vim contar pra vocês.

Pra mim foi um ato magnífico. Senti-me como Júlio César quando cruzou o Rubicão e disse que a sorte estava lançada. Fui pagar minha conta me sentindo o comandante das legiões do império romano. Paguei e logo em seguida tive outra recompensa. Não foi nada vindo da moça que estava sentada com o seu Mac Book Pro – bem que podia ser o nome do vendedor no Paraguai que vendeu pra ela o computador, mas um cartão com seu telefone bastava –, na verdade foi com a mesma garçonete que me recebeu quando entrei no café, aquela mesma que achou estranho eu estar ali sozinho. Ela me abriu um sorriso que poucas vezes vi uma pessoa aqui em Curitiba dá. E este sorriso foi pra mim. Mas depois que sai do café, provavelmente era uma mera cortesia e que ela fazia isso com todos os clientes, pois o publicitário falou que faria com que os clientes voltassem. Mas tudo bem, eu havia escrito no quadro “His Name Was Robert Paulson” mesmo tendo ficado completamente travado e provavelmente nada disso teria acontecido se qualquer uma das minhas neuras tivessem sido neuras de outras pessoas acontecendo em ordem diferente. Sei não, parece que to forçando a barra pra ter minha escrita comparada a do Scott Fitzgerald, o escritor do Curioso Caso de Benjamin Button.

PS: Pra você não achar que eu sou mais um pretensioso que frequenta aquele café, confesso que depois de todas essas palavras, me parece que o motivo que as escrevi foi para lembrar desse dia, dessa conquista pessoal e como por coincidência tinha visto um belo sorriso de cortesia. É isso que eu levo pra mim. Mas deixo o leitor com um exercício de imaginação.

Agora imagine, leitor, que legal seria se essa garçonete fosse a mesma pessoa que escreveu aquele “oi” no quadro, imagine se Fight Club seja seu filme favorito, imagine que ela, naquela dia em particular, se sentia muito sozinha – e morar em Curitiba te auxilia nesse sentimento. Agora imagine a reação dela ao ler o que um estranho escreveu pra ela em resposta com algo que ele julgasse bonito o seu oi.

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