Crônicas

 

Uma Artilheira do Contente

Tassiane Corrêa Fontoura.

“Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus
[braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.”
Drummond

Hoje atipicamente amanheceu calor em Curitiba. E não me sobram dúvidas, pois há pelo menos uns quinze anos tenho sensações peculiares sobre este dia: é meu aniversário. Tô planejando uns paparicos pro final de semana junto de meus amigos mais queridos: balões azuis e fitas douradas. Mas hoje é quarta-feira e ela sempre me foi especial porque não é nem tão próxima de segunda e nem tão distante de sexta-feira. É o meio do caminho e a mim sempre agradou muito o equilíbrio das coisas. Pois justamente enquanto equilibrava o meu atraso para a aula da tarde e as necessidades simbólicas da minha persistência no mundo, catei uns trocados meus e de meu pai e fui caminhado até a distribuidora de doces comprar velas. Por alguma razão categórica eu tinha certeza que as encontraria bem ao lado das paçocas e papeizinhos de embrulhar brigadeiros. Mas não tinham as que eu queria. Somente uma e cor-de-rosa do número dois. O meu desejo eram duas completamente azuis e com gliter: um céu pra eu ascender. Não desisti e fui ao supermercado do outro lado da rua e pude por alguns segundos ludibriar a mim mesma que sou capaz de desvendar pelas placas do alto a lógica das prateleiras. Em vão. Tive de ir perguntar às pessoas que trabalham ali. Eu devo de me perder de propósito: gosto de conversar com gente. Aí era a missão de encontrar um trabalhador. Espantosamente frequentava naquele minuto e no alcance dos meus olhos uns pares de pessoas comuns vestidas com as cores do uniforme do mercado. Fui resistente aos meus enganos e só perguntei aonde é que tinham velinhas quando reconheci o semblante e bordado vermelho na camisa de quem é dali. O meu coração brilhava enquanto bem próxima na gôndola vi as fileiras de velas brancas, rosas e AZUIS com gliter! E qual foi minha decepção ao chegar perto e já com um três brilhante nas mãos não encontrar o dois – era a única sessão vazia. O trabalhador compadecido da minha simpatia ou talvez apenas cumprindo suas atribuições de conhecedor das mercadorias se esforçou para numa sacola cheia de caquinhos quebrados encontrar o meu dois. Aí ele me explicou todo com desculpas que o dois estava em falta e o pedido feito carecia a acontecer. Mas eu já estava novamente sorrindo e sacado o recado, disse: ‘- Sabe, deve ter bastante gente de vinte e poucos anos fazendo aniversário!’ Era isso e tal constatação veio-me como um tapa de luva a deixar-me imensamente alegre. As indústrias de velas devem estar tendo seus meticulosos cálculos estatísticos sabotados pela resistência da juventude brasileira. Por mais que a polícia insista em metralhar-nos e dos demais individualistas roubarem nossa humanidade fazendo-nos sentir o peso das faltas. Alegrei-me profundamente com minha própria motivação de que devo viver! E mais um pouco ainda, pois superava naquele lindésimo de segundo minha dificuldade por pensar em crônicas – sem minhas fantasias: apegar-me a realidade e não odiá-la. Bradei um viva de força aos vinte e poucos anos! Vamos resistir e faltando velas para comprar construiremos nossas próprias chamas para apagar e fechar os olhos com um pedido. Faço vinte e três anos.

 

TEMOS DE SER NÓS MESMOS (tema de um concurso literário).

Caio Kim.

Eis a afirmação! Da capo já evito a extensão filosófica do pseudônimo pretérito, prossigo…  sem constrangimento, ao relento, mesmo porque, são palavras ao vento.  O presente momento constrói o desfecho, o próximo trecho. Com cal e cimento, com conhecimento, autoconhecimento.

Será um paradoxo viver a vida alheia? Aposto! Apostam e a postos ganham a aposta.  Tudo imposto. Eu prefiro mar e areia a gosto, há gosto. Também há mosto. Ainda bem! Cora o rosto, disfarça a vergonha alheia, quanto paradoxo! Mas dá um desgosto! Inverso em verso livre.

Fingir-se é sacanagem, surge um observador, acena, ressurge o personagem, a cena, mecenas, mil cenas. Só muda a embalagem. Muda também a escrita, só porque rima é bonita. Hão de gostar desse treco, um teco, talvez, um tanto. Triagem.

Se agora não o é, é o agora. Metamórfico mesmo, me entendo, sem meter medo, me tendo. Não em casulo, não enclausuro. Solto as palavras, o verbo se necessário, o que vem fica, a esmo, o que ficara mesmo?

Quem complica, se trumbica. Bota a boca no trombone, pensar alto ajuda, auto-ajuda. Sensação exagerada, límbico compulsivo, sensatez exagerada, ética compulsiva, vê e se culpa, se pré-ocupa, vem e se desculpa, vê se ocupa! Dia bucólico, oficina diabólica, não é bem assim, a mente também repousa, também reflete, refrata, o que não é da gente melhor nem comunicar… Se faço o que penso, sou o que penso ser. Se penso que existo, existo para mim, ou imagino que sim. Aja como for, exista logo!

A verdadeira arte expressa, não tem pressa, não tem preço! Houve tempo que ou te pagavam, ou te apagavam, castidade de espírito, ainda há tempo. Por que o que é para um de poucos é também para muitos e o que é um de muitos não é para poucos? Distribuição desigual de vendas para uns, de abafador de som para outros. Todos por um. Denota-se, conota-se, detona-se, contorna-se. A nota é subjetiva, entrelinhas, mas objetiva claramente, põe medo! Aí se faz o que se paga.

Acabou a educação artística, é de ciências a próxima aula e a escola continua a brincar, massinha cerebral de modelar. Surreal? Não. É sujo e real, peso, dólar, seja lá o que for. Abaixo a imaginação! Discurso baixo, ação que ostenta a imagem. Tentação.

Aqui abro mão das frases curtas para dizer-lhes o que para mim é o maior dos mandamentos: Amar a todos e a todas as coisas. Certo que eu ando meio vagabundo, confesso. Mas quando se lembram ninguém se retira, ninguém se incomoda. Quando me lembro dou as mãos e entro na ciranda do tão sonhado paraíso do inconsciente coletivo, e gira cada um na sua forma infinita, na fórmula mais bonita!

Como a ampulheta do tempo tem a paciência inversamente sincrônica ao vértice oposto da base, encerro aqui essa afirmação crônica, essa crônica afirmativa. Acolá as críticas bombardeiam. Que se exploda! Se for tudo de coração…

 

Um pensamento sobre “Crônicas

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