Contos

“Eu queria avançar para o começo. 
Chegar ao criançamento das palavras.
Lá onde elas ainda urinam na perna” Manoel de Barros

 

…De ancião para ansião…

Um terremoto interno saracoteia as pernas sem cessar, a mesa é que sofre convulsivamente com os tremeliques. Várias gotinhas do suco da inspiração mancham o papel que a história desenrola, mas ao invés do agradável palato do maracujá fica na boca um gosto estranho de grafite, de tanto se mordiscar a extremidade do cotoco que dá vida às idéias. Por vezes se atropela o meio para findar o conto com sua moral.

Lá fora é tanta calmaria que a algazarra fica por conta das cigarras, que reproduzem o som como se mantralizassem … Isso me lembra de um ancião que conheci enquanto exorbitava demonstrações da minha espalhafatosa plenitude de consciência corporal, as desajudas das marolas faziam com que o velho ancião se risse da minha empreitada em tentar alcançar as folhas que passeavam pelo jardim. Velhaco ordinário! Mas ah se não fosse a sua sapiência em se por contra o vento e me entregar os escritos são e salvos.

Ancião: – Deve lhe ser algo muito importante pelo seu desespero.

Ansião: – São meus escritos, cada um é como um filho.

Ancião: – Caro artista! Acredito que nada é simplesmente coincidência. Tenho uma história que ainda não foi contada, venha meditar comigo qualquer hora e você avalia se ela merece ser escrita.

De onde vem tanta calma? Seria um desafio ouvir uma história inteira naquela demora toda em terminar cada palavra, c-a-d-a l-e-t-r-a. A intuição artística é que me convence de que pode valer à pena.  Com grande euforia dou uma pausa nessa minha vontade de escrever esperando uma boa história em troca.

  .          .            .

Chegando lá no local de meditação estava o ancião com as pernas cruzadas, olhos fechados, costas eretas e o semblante descontraído e sereno. Permaneci ali parado por alguns segundos até que não agüentei e, tentando não discrepar com minhas extravagâncias no ambiente, sussurrei:

– Com licença, o senhor prometeu-me uma história.

Nenhuma reação. Pensei que ele poderia não ter ouvido e fiz meu timbre de voz se perceber. Nada. Esperei, esperei, esperei… a essa altura o corpo todo já sacudia pelo embalo das pernas como se ao meu lado tocasse uma virtuosa distorção de solos juntamente com um grupo percussivo no auge de sua dinâmica frenética, enquanto na cachola do mestre parecia que as gotas vagarosamente tocavam uma lâmina da água e soavam como notas musicais sutis e despreocupadas. Inclinei minha cabeça com as orelhas voltadas para a boca do guru, ela parecia se mexer às vezes, mas nada audível, o velho seguia equânime.  Pensei ser possível o mestre estar tentando alguma transmissão telepática. Então me sentei em frente ao ancião, fechei os olhos e fiquei desejando receber a história até me sentir a mais abobada das criaturas. Mas no fundo eu admirava a capacidade que aquele ser da minha frente tinha de ficar em silêncio. Até quando ele fala parece ter mais silêncio que palavras.

E assim minha mente ia e voltava: ora fazia força para esvaziá-la, ora achava que era perda de tempo, logo outros infinitos pensamentos surgiam em uma fração de segundo. Abria os olhos e dois segundos passados tornava-os a abrir novamente, endireitava as costas. De tanto os pensamentos irem, achei lá no fundo de algum asteróide de outra galáxia algumas lembranças aleatórias que surgiam e me acalmavam um pouco.

Essa é a calmaria que nunca mais me permitira visitar, uma sensação gostosa que formiga até a ponta dos dedos do meu pé e faz do ar o aroma do prazer. Há quanto tempo não parava assim para me perceber? Meu eu interior parecia adormecido com tanta coisa na mente durante todos esses anos. Fiquei ali uns segundos, minutos, horas, nem sei ao certo, a onda de euforia houvera dado lugar para a paz, desse intenso instante em não fazer nada surgiu a sensação de que poderia ficar dias por ali.

Então o ancião respirou mais profundamente, abri meus olhos e compreendi a calmaria toda daquele olhar, com um leve carinho em retribuição ao meu olhar de gratidão. Por um momento havia até esquecido da história, era como um conto sem palavras. Mas garanto que valeu a espera de cada palavrinha que me foi contada e confiada. Uma história linda. Que não tem pressa para ser escrita…

Caio Kim. 

 

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