Chá de Areia – Coluna Literária Banda B

O canto sagrado circunda e reverbera pelos arredores da savana. Aquela África de reis e magos adormece hoje com o brilho gasto e igual de uma fotografia antiga e querida. As cores do fim de tarde colorem tudo de saudade.

Muito vagarosa, porém com determinação tamanha, a Lua vai lançando uma pontinha sua de cada vez. Lá no alto rasga com toda a delicadeza um pedaço do Céu – feito renda. A sua borda brilhante toca a água da superfície das lagoas e vibra gotinhas por dentro das plantas e de todos os demais seres. Mas é especial para as femininas: das Sacerdotisas às Chipanzés.

Especialmente hoje a festa é para uma mamãe elefante. As suas companheiras de manada lambem-lhe com candura e rodeios. As trombas resgatam aquela canção antiga… Imensos, seus corpos cinzas confundem-se com a fumaça de algum sábio curandeiro e num segundo, entre os roncos mais íntimos e bater de orelhas, a fêmea dá à luz. A bolsa cristalina que envolve o neném rola e abre-se na areia…

As companheiras são as sábias guias. Com as delicadas pedrinhas miúdas de areia cumprem o ritual de boas vindas. As escorregam feito pérola pelo corpo recém nascido, limpam as impurezas e o abençoam para a vida.

 

Últimos dias

Está acabando o prazo para colaborar com o nosso livro ‘Criança à Flor da Pele’  por meio do sistema de compra antecipada. O prazo vai até o dia 31 de janeiro.

O financiamento da publicação acontece de forma colaborativa, por meio da plataforma de crowdfunding Catarse (http://catarse.me/pt/criancaflorpele).

Funciona assim: nós prepararamos uma série de brindes e recompensas que compõe pacotes, com valores e combinações distintas para colaboração financeira. O próprio livro, em uma ou mais unidades, faz parte desses arranjos. Ou seja, você adquire o livro e/ou outros itens promocionais, como marca-páginas e brindes artesanais feitos com carinho pela empresa Cabide, ao mesmo tempo em que torna possível a concretização do sonho deles de lançar um livro.

Colabore – Assista ao vídeo

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Nossa estreia no Catarse!

Galera!

Hoje é um dia muito especial: começa a contagem regressiva pra publicação do nosso primeiro livro de contos e poesias. Nós teremos 60 dias para fazer acontecer o financiamento colaborativo do nosso projeto.

A jornada foi longa e enfim estamos aqui, com o livro prontinho! Reunimos com todo o carinho parte nossos escritos porque, principalmente, acreditamos na arte como força de resistência, denúncia e encanto! E não dava mais prá deixar guardado na gaveta ou no desktop, hehe.

Agradecemos de coração à todos que estiveram ao nosso lado e aguentaram a nossa euforia por compartilhar as criações literárias.
Um abraço muito apertado à equipe que abraçou esse sonho com a gente:Thiago Dominoni, Antonio Lopes, Andressa Marzani, Thiago Martins, K’roll Oliveira, Francis de Cristo e Larissa Mayra de Lima!

Abaixo o link do Catarse para a contribuição e aquisição antecipada do livro:catarse.me/criancaflorpele

Uma Carta para o Oriente

Se não me falha a imaginação…

tens diante dos olhos o papel surrado que viajou correntes marítimas. Quem sabe ao estourar a rolha, o primeiro a recebê-la ouviu uma canção de baleias jubartes guardada ali, como um pedaço de concha que ecoa o mar. Por certo talvez e de encontro ao hábito de suas terras, esperou uns instantes a fumaça acumular-se num canto e o verde do céu confundir-se com os olhos de um bravo gênio a aparecer à sua frente. Com alguma boa história e uma porção de feitiços… Vai ver o peregrino desejou um oásis e com o vidro da garrafa fazer seu olho velho enxergar distâncias…

As letras, em qual alfabeto será que foram grafadas? Do ar qual ave cedeu uma pena sua, salva para mergulhar-se em tinta? Ao lado de qual duna encontrou o segundo viajante a garrafa então abandonada? Haveria ali algum adendo, alguma prece, uma súplica de esperança? Pelas pupilas dilatadas acredito que um pó de flor pode lhe ter tocado os lábios. As mamães assim, ninavam seus filhos tristes num passado bravo. Suspiro que não.

O meu desejo à estrela do oriente, era uma carta assim que chegasse aos nenéns, sem lhes entorpecer ou confundir a mente, niná-los palavra à palavrinha numa estória dessas que cantam quem cuida com carinho, de um pequeno ser: recém chegado ao mundo.

Com um beijo de vento selo o envelope.
E o sal de minha língua se confunde com o mar.

Por Tassi e Caio
em sua coluna na Rádio Banda B. 

Semana da Consciência Negra – Meu Coração Nêgo Véio

O período do mês de novembro é marcado pela evidência da temática da consciência negra no Brasil. A data 20 de novembro é registro histórico da resistência negra, até à morte, simbolizada principalmente pela figura de  Zumbi, do quilombo dos Palmares. Nós do Encanto em Conto prestamos nossa homenagem ao povo e à cultura negra em nossa coluna na Rádio B.

“Meu Coração Nêgo Véio

“Que eu sou feito da terra
Do fogo, da água e do ar”

Menina bota a mão no peito, esquerda toca três vezes forte o coração e troca o mais profundo que há em si com o outro. O toque do dorso do antebraço e das cabeças é a singularidade do cumprimento. O gesto humilde retorna a testa ao solo, abaixa o cocuruto numa reverência de quem compreende o conhecimento tanto, por todo tempo escondido. – Presta atenção filha, o som do atabaque aqui circula, massageia o teu seio e expulsa tua aflição.

Está em tudo. Nos teus hábitos de cozer com as ervas da terra chás pro teu alimento, teus cabelos e proteção. Em cada movimento teu contra o vento. Quantas tempestades bravas enfrentaram o nosso povo negro! Está no calor do cachimbo, da fogueira, da pimenta malagueta do feijão. Concentrada na dose, de resistência à cada manhã.

Aí o mundo em ritmo todo se descadeira… Aquilo que o corpo pede a dança afro oferece e entrega, humildemente eleva. Como gargalhadas da alma que se apraze em intensidades ou mesmo das cócegas chacoalhadas pelo caxixi e xequerê. 

De tudo nêgo, não nego, de queixo obtuso o sorriso se desprende como beijos para o mundo.

Têm-se apreço pelos cantos de lamentação, nunca desprezo, mas as memórias não são de quem as julgam, são de quem as vivem para contar. E dessas rodas vibrantes os tambores ecoam e contam histórias. Então, que vibre alto e grave sempre, a firmeza de nossas mãos.

Se suncê precizá, não ouse titubear.
É tempo do cativeiro todo se libertar.”

Saravá.
Luta e resistência!

Nó de Pinho na Garganta – Conto para o movimento em defesa da Mata dos Arroios

Nós acreditamos na escrita como uma forma de denunciar a realidade, influenciar e fortalecer sua mudança. Há pouco mais de um mês nós fomos convidados à escrever um conto para um movimento local, dos moradores da cidade de Irati/PR. O movimento envolve ambientalistas, estudantes e moradores da cidade. A luta é pela não derrubada da Mata dos Arroios, uma região histórica e ampla de nata nativa localizada no centro da cidade e quem está sendo alvo de especulação imobiliária, desmatamento e queimadas ilegais. É uma região de muito carinho para a população local. Eis aqui a nossa contribuição…

Nó de Pinho na Garganta 

“Tão logo tudo muro, bicho não mora, nem amora, esmero passarinho avoa pra bem longe daqui”

Eu deitei-me a nuca nua e de cabelos lavados à alecrim na sombra tão antiga e robusta, cobri-me de folhas e vertigens. Os meus olhos pequenos buscavam proteção naquele gesto tão quieto e dei por compaixão meus dedos às plantas. Um botão de rosa, de repente, caiu-me ao colo e apegou do meio de minha garganta uma lágrima dura e raivosa.

Ergui-as contra o Sol, cada uma de suas pétalas e contornando-as pude ver a delicadeza afiada das garras de uma formiga garrida. A minha tranquila observação foi rasgada pelas minhas unhas assustadas. Um tanto de barro enfiou-se nos vãos e quisera eu com eles reconstruir meu próprio império: O meu e o dos bichos que corriam assustados pelo ruído bravo das motosserras, que surravam aqueles que ficavam.

Amontoei como peças de lego as poucas cores desgastadas das memórias que a lâmina partia e os escombros cobriam: As marcas vivas das pegadas das pacas tornar-se-iam apenas cicatrizes; os pedaços das orquídeas, que cultivou meu avô, esvair-se-iam obsoletos; uma paisagem, outrora aquarela vibrante, esmorecer-se-ia na uniformidade; e os sabores, das migalhas de pão de mel dos piqueniques, entre as árvores morrer-se-iam lá no palato, onde o amargo futuro dos muros sobrepujarão a doce lembrança de amora, de água fresca da nascente, de banho gelado na bica, de pinhão sapecado, do sapequear no mato.

*Este conto foi publicado em nossa coluna semanal no portal da Rádio Banda B. 

Ação de Divulgação!

Nós começamos uma jornada de entrega de presentes, como ação de divulgação do projeto do nosso livro! É assim: cada integrante da equipe vai escolher um lugar da cidade e um horário, ali vai presentear alguém com uma das nossas caixinhas em miniaturas e mais outra lembrança, partezinha do livro.

Aqui a arte de divulgação da ação dessa semana, com o Antonio Lopes.
Você pode encontrar o Ton na terça-feira agora, 04.11 às 15h em frente à Gibiteca do Solar do Barão.

ação caixinhas

Nossas Miniaturas!

O nosso projeto todo está sendo criado de forma artesanal e minuciosa. Os nossos livros, serão costurados à mão… Assim como nós escolhemos com cuidado cada palavrinha para cada conto.
Durante o nosso caminho encontramos parceiros que se encantaram com nosso trabalho e retribuíram com sua própria arte também!

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A Equipe Cabide é um desses parceiros. Criaram com toda sua delicadeza miniaturas em caixinhas de fósforo imã… inspiradas e contando a estória de nossos contos! As primeiras caixinhas feitas  vieram de  “Não Tire a Boina para Comer”, do Caio. Há um pergaminho, por cima, enroladinho com o conto datilografado em máquina de escrever e , por dentro, a miniatura…

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Essas miniaturas são presentes, parte da ação de divulgação que estamos fazendo semanalmente e também vão compor os arranjos de brindes no Catarse. Fique atento às datas das ações em nossa fanpage e ao início do financiamento colaborativo.

E se encante.

Nossos Primeiros Marca Páginas!

Nós como artistas e escritores que somos adoramos a leitura e os acessórios dela!
O Antônio Lopes, da nossa parceríssima Impulso Visual, inspirado em um de nossos micro-continhos, criou com toda sua sensibilidade uma ilustra e o nosso primeiro marca páginas!

Durante essa etapa o marca-páginas é nossa forma de divulgar o nosso projeto. Há um outro modelo maravilhoso que virá logo mais… Os marca-páginas vão compor os nossos arranjos de brindes e recompensas pela colaboração financeira no Catarse!

Toda semana estamos realizando uma ação de divulgação! Onde um integrante de toda equipe vai até algum lugar da cidade e presenteia alguém com um marca-página e mais uma outra delicadeza artesanal, que é surpresa!

marca páginas

Criança à Flor da Pele

Viver com Bolha no Pé era Comum 

Eu sou do tempo em que o mertiolate era o maior inimigo do homem.
Caio Kim

Contos Ilustrados! nº 2

A nossa coletânea de conto e poesias está quase aí! O nosso livro Criança à Flor da Pele é ilustrado por Francis de Cristo e Antonio Lopes.
O Francis já realizou, antes da organização do projeto do livro, ilustrações de nossos contos. São dois: ‘Cortaram meu Black Power’ e ‘Receita sem Asa de Morcego’!

Divulgamos aqui, uma a uma, essas ilustras e contos pra vocês irem experimento um pouquinho dessa belezura toda artística! Confira clicando aqui a ilustra de Cortaram meu Black Power. 

ilustra
Receita sem Asa de Morcego 

Toda fumaça que sobe é o intervalo em que a velha afaga o gato preto:despeja o joelho e o rabo de porco no caldo de galinha, sobe a fumaça, põe a orelha de javali, mais fumaça, língua de boi, agora só se enxerga a penumbra da curva avantajada no rosto de maracujá.De novo esse papo de bruxas em pleno século XXI? Não, não se trata de uma poção mágica para algum garoto malvado, é apenas a feijoada preferida do netinho do coração.

Contos Ilustrados! nº 1

A nossa coletânea de conto e poesias está quase aí! O nosso livro Criança à Flor da Pele é ilustrado por Francis de Cristo e Antonio Lopes.
O Francis já realizou, antes da organização do projeto do livro, ilustrações de nossos contos. São dois: ‘Cortaram meu Black Power’ e ‘Receita sem Asa de Morcego’!

Divulgamos aqui, uma a uma, essas ilustras e contos pra vocês irem experimento um pouquinho dessa belezura toda artística! Confira clicando aqui a ilustra de Receita em Asa de Morcego.

cortaram meu black power

Cortaram meu Black Power!

Cresceu rodopiando pião na curva do meio fio de sua rua, o chão de terra lambuzando os pés pras peladas com bola de meia e os buracos sendo alvo das emocionantes partidas de bolinha de gude. Amiguinho de todo mundo só torcia o bico quando tiravam onda do penteado maluco: ‘- Parece cogumelo.’ Mó vacilo isso aí! Nos cadernos da escola as continhas aprendidas ajudavam na contagem das moedas pra compra do álbum de figurinhas. Querido time do coração! Mas nas peripécias de moleque a dor foi se aproximando e criando a profecia do dia-a-dia: também de pão vive o homem. A sobrevivência exigiu a brincadeira mudar-se pra mais longe de casa. Lá por onde passa sempre muita gente de tudo que é canto indo pra tudo que é lugar e buscando tudo que é tipo de coisa. Há de ter uns que admirem malabares também! As cores de luzes do sinal eram a ampulheta de sua sobrevivência. Ser um mágico espetacular nos quatro primeiro segundos e no segundo tempo ser convincente o suficiente e descolar umas moedas, tudo trocadinho. Trocada sua arte no sinal por dinheiro, trocado seu dinheiro por arroz com feijão. Tornou-se homem sem poder exibir diploma, mas garantiu em casa barriguinhas todas cheias. Numa dessas madrugadas após baladinha caminhava na rua ao lado da namorada. Foi preciso segurar firme o choro e toda a raiva.Caso tivesse naquele dia uma lâmpada do gênio no bolso teria pulado num tapete voador e escapado da enrascada. Mas um truculento homem fardado lhe jogou na traseira de um camburão. A serenata programada ficou só na expectativa de quem a noite toda admirou a Lua, sentado em cama gelada.