Nó de Pinho na Garganta – Conto para o movimento em defesa da Mata dos Arroios

Nós acreditamos na escrita como uma forma de denunciar a realidade, influenciar e fortalecer sua mudança. Há pouco mais de um mês nós fomos convidados à escrever um conto para um movimento local, dos moradores da cidade de Irati/PR. O movimento envolve ambientalistas, estudantes e moradores da cidade. A luta é pela não derrubada da Mata dos Arroios, uma região histórica e ampla de nata nativa localizada no centro da cidade e quem está sendo alvo de especulação imobiliária, desmatamento e queimadas ilegais. É uma região de muito carinho para a população local. Eis aqui a nossa contribuição…

Nó de Pinho na Garganta 

“Tão logo tudo muro, bicho não mora, nem amora, esmero passarinho avoa pra bem longe daqui”

Eu deitei-me a nuca nua e de cabelos lavados à alecrim na sombra tão antiga e robusta, cobri-me de folhas e vertigens. Os meus olhos pequenos buscavam proteção naquele gesto tão quieto e dei por compaixão meus dedos às plantas. Um botão de rosa, de repente, caiu-me ao colo e apegou do meio de minha garganta uma lágrima dura e raivosa.

Ergui-as contra o Sol, cada uma de suas pétalas e contornando-as pude ver a delicadeza afiada das garras de uma formiga garrida. A minha tranquila observação foi rasgada pelas minhas unhas assustadas. Um tanto de barro enfiou-se nos vãos e quisera eu com eles reconstruir meu próprio império: O meu e o dos bichos que corriam assustados pelo ruído bravo das motosserras, que surravam aqueles que ficavam.

Amontoei como peças de lego as poucas cores desgastadas das memórias que a lâmina partia e os escombros cobriam: As marcas vivas das pegadas das pacas tornar-se-iam apenas cicatrizes; os pedaços das orquídeas, que cultivou meu avô, esvair-se-iam obsoletos; uma paisagem, outrora aquarela vibrante, esmorecer-se-ia na uniformidade; e os sabores, das migalhas de pão de mel dos piqueniques, entre as árvores morrer-se-iam lá no palato, onde o amargo futuro dos muros sobrepujarão a doce lembrança de amora, de água fresca da nascente, de banho gelado na bica, de pinhão sapecado, do sapequear no mato.

*Este conto foi publicado em nossa coluna semanal no portal da Rádio Banda B. 

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